A palavra Codocência remete a ideia de trabalho mútuo e compartilhado. Um trabalho que se corresponde parte a parte. Se entendemos à docência como o exercício, a tarefa, o trabalho, a arte, ou o labor de um professor, na Codocência teremos então: um coprofessor. No caso deste livro e devido à natureza da surdez, o profissional que realizará o papel codocente é o Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais/Língua Portuguesa – TILSP.
A maneira com que um TILSP ingressa no ambiente escolar é bastante diversificada nos diferentes territórios do Brasil. Mas, em especial, no Distrito Federal – DF, antes de atuar como TILSP, o profissional da Secretaria de Educação do DF ingressa em sua carreira profissional como professor. Não há um concurso específico para TILSP. Há concurso para professores.
Sendo assim, um professor quando está atuando, atua em regime de docência. O TILSP quando está atuando, em sala de aula, atuará em regime de Codocência. Então, antes de ser TILSP, ele é um professor. Desse modo, entendemos que, na Codocência, para a figura do TILSP, no âmbito escolar, ele é o segundo professor, melhor dizendo, ele é o Professor Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais/Língua Portuguesa – PTILSP ou Docente Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais/Língua Portuguesa – DTILSP.
O TILSP pode, assim, ser visto como o segundo professor (PTILSP) já que, a Codocência permite entender que são dois professores trabalhando em uma mesma sala de aula compartilhando temas, atividades, avaliações, métodos, angústias etc., a partir de um mesmo componente curricular (disciplina).
Sendo o PTILSP o segundo professor é preciso, então, que sejam criadas condições para que sua atuação profissional não seja descaracterizada ou mesmo banalizada. Para atuação em dupla de professores, em salas de aula inclusivas, são necessárias certas precauções e muito preparo profissional. Estamos falando de uma relação de trabalho mútua e compartilhada. Estamos falando da Interdependência Professor/PTILSP ou Docente/DTILSP.
Interdependência Professor/PTILSP – Codocência
No que se refere a atuação desses profissionais, Kelman e Tuxi (2011) dizem que eles podem trabalhar de duas maneiras: Bidocência e/ou Codocência. A diferença é que a Bidocência pode ser entendida como a atuação de dois profissionais que ocupam um mesmo espaço, e a Codocência – mais eficaz – ocorre quando os profissionais desempenham seus papéis mutuamente, compartilhando planejamentos, avaliações etc.
Assim, podemos canalizar os nossos esforços para uma das características da Codocência apresentadas por Kelman e Tuxi (2011). Para elas, “a Codocência é entendida como trabalho mútuo, compartilhado, no qual planejamentos e avaliações – enfim, grande parte das atividades desenvolvidas no ambiente educacional – são compartilhados” (p. 96).
Isso significa que se houver uma certa dedicação de ambos os profissionais, professor e PTILSP, na preparação de aulas, não apenas os estudantes Surdos1 ganharão com isso, mas os estudantes não Surdos também e, consequentemente, toda a comunidade e a sociedade. As vantagens educacionais se estendem aos estudantes não Surdos porque as aulas ganham ênfase em aspectos visuais e temporais, o que favorece o aprendizado de ambos os estudantes, permitindo, também, a inclusão de estudantes não Surdos no mundo dos Surdos.
A interdependência Professor/PTILSP reside, então, na Codocência. Uma formação de professores que ofereça condições para compreensão da Codocência pode permitir um melhor entendimento sobre essa interdependência. Além disso, no caso de estudantes em formação, nas Licenciaturas, a Codocência poderá ser uma experiência enriquecedora, porque os futuros professores terão a chance de antever parte dos desafios que enfrentarão nas escolas.
A Codocência é um modelo que permite oferecer educação inclusiva efetiva e conceitual, porque apresenta vantagens que incluem oportunidades de troca de ideias entre os profissionais envolvidos no processo ensino-aprendizagem. Idealmente, requer-se que ambos os professores colaborem no planejamento, na instrução e na avaliação de todos os estudantes e nem sempre isto é pensado e proporcionado nos espaços escolares ou de formação de professores.
Mas, o que queremos dizer com Codocência? De acordo com Cook e Friend (1995), muitos educadores e pesquisadores têm se mostrado intrigados com a possibilidade de dois professores atuarem em uma mesma sala. Segundo esses autores, desde a década de 1960, a Codocência2 tem sido recomendada como uma estratégia para reorganização escolar dos Estados Unidos e da Inglaterra.
No final da década de 1980, a Codocência passou a ser incorporada aos programas de educação que visavam atender aos estudantes com necessidades específicas em ambientes e espaços da educação regular – algo semelhante ao que denominamos, aqui no Brasil, de educação inclusiva (COOK; FRIEND, 1995). Ao longo dos anos, a Codocência adquiriu formas variadas de condução e aplicabilidade, especialmente em se tratando de interação entre professores (GATELY; GATELY JR., 2001; MURAWSKI, 2002).
Para que a Codocência seja conduzida de maneira adequada, Cook e Friend (1995) reforçam que é preciso os profissionais saibam bem o que ela significa. Desse modo, eles apresentaram a seguinte definição: “[...] dois ou mais profissionais oferecendo instrução substancial para um grupo diversificado de estudantes em um único espaço físico” (p. 1, tradução livre). Para Murawski (2002) são dois professores planejando, instruindo e avaliando em uma mesma sala de aula.
Para nós, na Codocência, ambos são professores, mas um deles é um profissional especialista em Tradução e Interpretação no âmbito escolar, e eles precisam estar envolvidos ativamente no processo ensino-aprendizagem dos estudantes. Finalmente, a Codocência deve ser conduzida nas salas de aula inclusivas, o que difere de atendimentos educacionais especializados e individualizados, mesmo porque, os profissionais, além de atuarem juntos, compartilham acontecimentos na sala de aula e dos demais processos do ambiente educacional (COOK; FRIEND, 1995; KELMAN, 2005, MURAWSKI, 2002).
Nesse sentido, nós entendemos a Codocência como uma modalidade de serviço em que os profissionais não são subordinados um do outro, mas compartilham das responsabilidades no processo ensino-aprendizagem de todos os estudantes e tem, por natureza educacional, a função de educar. Portanto, devem atuar como professores no âmbito das salas de aula inclusivas.
Conforme dito anteriormente, o termo Codocência utilizado por nós, se traduz na interdependência Professor/PTILSP ou Docente/DTILSP, sob a ótica de uma atuação profissional no âmbito escolar ou educacional. Ambos os profissionais precisam ser professores que, em seus afazeres, visam a melhoria do processo ensino-aprendizagem de todos os estudantes em uma perspectiva de educação inclusiva efetiva e conceitual.
A apropriação do conceito de Codocência passa a ser, então, condição essencial para atuação em dupla de profissionais no sentido de atender demandas educacionais ou de necessidades específicas. É um diferencial para o processo ensino-aprendizagem, mais especificamente para o oferecimento de educação de qualidade tanto para estudantes Surdos quanto não Surdos.
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https://bit.ly/livrocodocencia
O autor/organizador
Eleandro Adir Philippsen é licenciado em Ciências, com habilitação em Química (UEG-Formosa); Mestre em Ensino de Ciências (PPGEC/UnB); Doutor em Educação em Ciências (PPGEduC/UnB). É docente e coordenador na Universidade Estadual de Goiás, Câmpus Nordeste. Tem experiência na área de Química, com ênfase em ensino de Ciências/Química, atuando principalmente na formação de professores. Pesquisa sobre educação inclusiva efetiva e conceitual de estudantes Surdos e não Surdos. Atua no Laboratório Interdisciplinar em Metodologias Ativas (Lima/UEG/CNPq), com pesquisas sobre Teorias da Criatividade e Formação de Professores.
Créditos das fotos: Apoliana Inácio Ferreira Dias
BIBLIOGRAFIA
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